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Ao se autodenominar “imbrocável” em uma tribuna em Brasília, no dia 7 de setembro passado, o ex-presidente Jair Bolsonaro atingiu um novo nível de estranheza.

A linguagem vulgar, o neologismo da masculinidade, a “masculinidade” – e o riso no ‘cercadinho’ – faziam parte do espetáculo cotidiano do homem que deveria dirigir os destinos políticos da nação. Houve também todo tipo de ataque à democracia, incluindo discursos, fake news e ameaças. Tudo feito dentro da estrutura do Governo, com o uso da máquina pública.

Um desses atos começou a ser julgado na semana passada pelo Tribunal Superior Eleitoral. O longo e denso voto do relatorMinistro Benedito Gonçalves, não foi limitado para analisar o objeto específico dos registros. Ele também destacou toda a trajetória que levou ao encontro com os embaixadores, evidente abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, transmitidos ao vivo pela TV pública.

O ministro destacou o encontro como um evento inserido em um contexto de diversos ataques ao sistema eleitoral do país – em entrevistas, transmissões ao vivo, discursos proferidos durante o mandato. A votação se estende aos demais processos que aguardam julgamento no TSE e mostra não sendo possível fechar os olhos às mentiras, aos discursos violentos e à banalização do golpe de Estado.

EmMuito significativa é a análise do potencial deletério e violento dos discursos de Bolsonaro, simbolizado na expressão “quatro linhas da Constituição”, amplamente utilizada pelo ex-presidente durante seu mandato.

As “quatro linhas” não foram explicadas, mas utilizadas para sugerir supostos desvios do Judiciário que deveriam ser enquadrados. A menção não veio por acaso, pois todo o discurso foi pautado para atacar o sistema eleitoral de votação, alimentando a sensação de que uma ameaça pairava sobre as Eleições de 2022 – desencadeando assim o conspiracionismo cultivado por seus correligionários, seguidores, base radicalizada.

Jair Bolsonaro usou uma plataforma para evocar suas supostas credenciais em questões sexuais – que só interessam a ele e a sua companheira, ao mesmo tempo que criava e alimentava desconfianças, sem qualquer comprovação, nas instituições e no sistema eleitoral. Sempre defendendo que estava amparado na liberdade de expressão e nas prerrogativas inerentes ao cargo de Chefe de Estado.

O julgamento provavelmente não terminará hoje (há mais seis ministros para votar, além das chances de um pedido de vista). De todo modo, é difícil haver argumentos jurídicos ou sociológicos contrários às teses trazidas pelo relator do caso, que revelam todas as etapas de um golpe militante que pretendia viabilizar um projeto autoritário de poder.

Originalmente publicado em https://www.cartacapital.com.br/opiniao/bolsonaro-de-imbrochavel-a-inelegivel-dentro-das-quatro-linhas/