Inflação bate retorno das aplicações no ano #economia

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Em um ano em que o Ibovespa teve um dos piores desempenhos globais, as taxas de juros subiram e a inflação corroeu o poder de compra dos brasileiros, deixando os investidores frustrados com o desempenho de sua carteira. No Brasil, em 2021, nenhum investimento financeiro foi capaz de superar a inflação. Pela primeira vez em toda a série acompanhada pelo Valor e consolidado a partir do Plano Real, nenhuma das classes de aplicação, exceto bitcoin, teve ganho real. A inflação venceu o Ibovespa, a renda fixa, o dólar e até o ouro.

A mediana das projeções mais recentes da pesquisa de mercado Focus, realizada pelo Banco Central, aponta para um IPCA de 10,04% em 2021. Com isso, todas as classes apresentaram queda real na receita, descontadas a inflação. Nem mesmo o dólar, que subia 9,77% no ano até ontem, teve forças para superar a alta dos preços. Por outro lado, o Ibovespa recuou 12,5% no consolidado de 2021 até o dia 29, enquanto o IMAB + 5, que reflete uma cesta de títulos do governo com vencimento em mais de cinco anos, perdeu 6,8%. O índice de renda fixa (IRFM) rendeu 2,1%. O CDI, referência para as aplicações de renda fixa, cresceu apenas 4,4% no ano.

Nem mesmo o ouro, bem considerado proteção, cumpria o papel de garantir o ganho real. O ouro subiu apenas 2,69% no ano, até ontem. A exceção foi o universo dos criptoativos, onde o bitcoin teve um aumento significativo de 74,5% no acumulado do período.

Segundo o gerente multimercado da XP asset, Bruno Marques, “a inflação, sem sombra de dúvida, foi o maior drama que a economia viveu este ano”. Para o especialista, a forte pressão para aumento de preços “não só desorganiza os processos econômicos como prejudica boa parte dos investimentos”.

Na virada do calendário para 2022, o alentador é que os ativos brasileiros partam de uma base tão depreciada que os especialistas em investimentos veem chances reais de recuperação. Não será linear ou sem obstáculos, há muitas incertezas no caminho. Mas a percepção é que parte do risco eleitoral já foi antecipado nos preços dos ativos e que o aperto monetário promovido pelo Banco Central (BC) finalmente terá efeito sobre os índices de preços da economia.

De qualquer forma, com a Selic em 9,25% ao ano, e a expectativa de que chegue e fique na casa dos dois dígitos por muito tempo, já existe um porto seguro para os investidores. Mas não se trata apenas de jogar na defesa, diz Rafael Bisinha, especialista em mercado local do banco privado do Citi.

Assim como acontece com os preços, as taxas futuras já apontam para uma Selic em 12%, 12,5% em 2022, o investidor pode se apropriar desses ganhos nominais se os juros básicos deixarem de subir antes disso. “Há uma oportunidade de ganho maior do que o custo de oportunidade, remunerando o risco em época de eleições”, afirma. “A inflação em 2021 foi alta, mas no ano que vem deve ficar mais perto do teto, de 5%. Se a Selic ficar em 11%, 11,5%, contra uma inflação de 5%, ela tem uma rentabilidade real contratada em torno de 5%, 6%, o que é bastante satisfatório ”.

Bisinha também vê as Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B ou Tesouro IPCA) como uma boa alternativa de proteção por prazos mais longos. “Quando se pensa em inflação persistente de médio e longo prazos, costuma estar associada a algum desarranjo das contas públicas, há dúvidas se haverá uma trajetória explosiva de endividamento e o mercado está passando por esse tipo de questionamento, isso está operando. ”

Se, por acaso, o descontrole não ocorrer e a âncora da meta de inflação for restabelecida, o melhor risco / retorno para alocação são as NTN-B com vencimentos em 2026 e 2028, que em geral pagam prêmio 5% acima da inflação , ele descreve Bisinha. “É um bom ganho travar neste horizonte de tempo. Se as coisas melhorarem no período pós-eleitoral, há motivos para imaginar que os investidores não encontrarão mais oportunidades como essa em um título público ”, afirma. “E se não derem certo em três a quatro anos e a inflação sair do controle, é bom estar indexado ao IPCA, isso minimiza a perda do poder aquisitivo dos recursos investidos.”

A alta da Selic também traz o conforto de ter mais caixa para aproveitar oportunidades em ativos de risco, como o mercado de ações. Depois de quedas colossais em alguns setores, Bisinha diz que é aconselhável ter munição para puxar o gatilho quando o ambiente de recuperação se recuperar. “Quem não está alocado em renda variável pode fazê-lo em tranches”.

Para os ativos internacionais, especialmente a bolsa de valores, Eduardo Ventura, que dirige o banco privado do Citi no Brasil, mantém uma visão positiva, apesar dos sinais do Federal Reserve (Fed, o BC americano) de redução de estímulos e até de ajuste monetário. “Lá fora há pouca convicção se a inflação é persistente ou não. É uma incerteza, mas dificilmente o BC vai esmagar o crescimento ”, afirma. “Há juros altos no radar, mas nada muda em nosso cenário, continuamos construtivos com as empresas e com a recuperação dos lucros.”

Em 2021, foram as carteiras internacionais que economizaram o ano, com alta de 10% em dólares, diz Ventura. A percepção é de que a renda fixa no exterior continuará apresentando retornos magros e que o mercado de ações tende a produzir novas alternativas de ganhos. Bisinha acrescenta que não deve ser na mesma velocidade este ano, em que impulsos monetários e fiscais proporcionaram valorizações significativas.

Nos Estados Unidos, as estimativas são de crescimento de lucros para empresas listadas entre 8% e 10%. “E você tem que pensar que as empresas pagam dividendos. Mesmo que não haja tanta expansão de múltiplos, há ganhos dessa ordem de captura ”, diz Bisinha. Europa e Ásia são outros mercados promissores, enquanto na América Latina o Citi está preparado para usar o dinheiro caso surjam oportunidades em meio a ciclos eleitorais em vários países da região.

De uma perspectiva global, 2022 tende a ser um ano de transição de políticas econômicas frouxas para alguma etapa de aperto de liquidez nos países desenvolvidos, diz Luiz Sedrani, diretor-gerente da BV Asset. A Covid-19 sai um pouco de cena e entra nas diferentes etapas de recuperação e iniciativas para conter as pressões inflacionárias.

Mesmo com aumentos de juros programados ao longo do ano, Sedrani vê a renda fixa como uma alternativa menos promissora. Nos EUA, ele ainda vê alta no resultado para as empresas. “Não será o mesmo crescimento [de 2020 e 2021], já está em velocidade de cruzeiro, que será sintetizada no próprio desempenho do S&P 500 ”, afirma. “Os ativos de risco ainda estão ok, não acredito em uma debandada completa.”

Para ativos locais, o executivo da BV Asset não acredita que o fator eleitoral, a inflação e a questão fiscal tenham sido totalmente incorporados aos preços. Mas o ponto de partida é tão baixo que permite um melhor desempenho em 2022. Alguns problemas, como o choque de energia, do petróleo, tendem a se dissipar, enquanto outros se acentuam. O cenário eleitoral precisa ser mais claro e pode ser um gatilho de reação, já que o discurso dos candidatos molda o que poderia ser 2023, sinalizando, por exemplo, quais nomes tocarão na economia.

“Quando olhamos para o mercado de ações, o desempenho das empresas foi bom, elas se saíram bem na geração de caixa e receita”, diz Sedrani. Até outubro, novembro, ele espera um ambiente de alta volatilidade, com o final do último trimestre talvez apresentando uma janela de ganhos para ativos de risco. “Pode ser uma porta de entrada – ou de saída – de todo o patrimônio brasileiro quando começar a definir a eleição, dependendo do discurso dos candidatos”.

Na gestão de portfólio, Sedrani enxerga um ano de posições mais táticas, com um turnaround um pouco mais rápido, aproveitando os movimentos extremos do mercado, além de olhar para fora do Brasil. Tanto aqui quanto no exterior, na bolsa vale a pena ser seletivo, buscar ações com maior potencial, ao invés de alocação passiva em índices.

Em renda fixa, o executivo diz que NTN-B com taxas entre 5% e 5,5%, além do IPCA, “dá muito interesse”, o problema é o investidor segurar no meio do caminho. “A taxa real de juros no Brasil está extremamente alta, o mercado coloca uma série de coisas ruins no preço, mas o governo tem capacidade de criar notícias negativas na sequência”, diz Sedrani.

Para um fundo que precisa atualizar o valor dos ativos a preços de mercado, esse tipo de alocação pode ser complicado em tempos de estresse, mas os indivíduos que conseguem manter os títulos até o vencimento podem desfrutar de bons ganhos reais.

Depois de um 2021 em que nem o investidor profissional ganhou dinheiro, há muito risco pela frente e não será trivial construir posições para o investidor em 2022, afirma Wilson Barcellos, CEO da Azimut Brasil Wealth Management. “Tanto no cenário interno quanto no externo, o risco é assimétrico, se der errado tem muito que ajustar nos preços.”

No Brasil, o executivo avalia que parte do estresse político e macroeconômico já está embutido nos preços dos ativos. “Apesar do histórico eleitoral, do problema fiscal e da inflação, vimos a bolsa de valores ser ‘esmagada’ ao longo do tempo em relação às demais bolsas do mundo, o dólar atingiu R $ 5,75 e o futuro projeta R $ 6,50.” Mas com o cenário nublado, Barcellos acha prudente ter alocações mais táticas, evitando posições estruturais, compradas, por exemplo, na bolsa e ficando estacionário no médio e longo prazo. “Eu ficaria com a boa parte da bolsa. no Brasil, pouco consumo, varejo, talvez Petrobras, Vale, até financeiras, tem muitos prêmios lá ”, diz.

Outra posição estrutural de que o executivo gosta são as NTN-B, com taxas em torno de 5,5%, enquanto o mundo anda com juros reais negativos.

Embora o real seja uma das moedas mais desvalorizadas do mundo, o executivo diz que não é possível apostar na sua valorização. “Bom ou ruim, o preço é justo, a troca é marcada a mercado.” Ele diz que é preferível delegar esse tipo de alocação a gerentes de moeda especializados. Não é possível confiar apenas em boas condições de balanço em transações correntes.

Após a alta de 2021, Marques explica que, nas expectativas do gerente do XP, a inflação tende a atingir o pico entre o final deste ano e o início de 2022. “Nos dois primeiros meses do próximo ano, a inflação tende a desacelerar gradativamente”, afirma. . Para o gestor, essa mudança de rumo abre oportunidades de investimentos. “O BC está atuando e, com isso, o processo desinflacionário abrirá algumas oportunidades, como a curva de juros”, diz.


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