Perspectivas para economia em 2022 são limitadas e apontam estagflação #economia

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São Paulo – Depois de uma série de anos ruins, as perspectivas para 2022 continuam negativas, afirma Antonio Corrêa de Lacerda, presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon) e professor-doutor do Programa de Pós-Graduação em Economia Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Paulo (PUC-SP). Para ele, o cenário mais provável é a chamada estagflação, com crescimento próximo de zero e inflação ainda expressiva.

Em relação à alta de preços, Lacerda diz que o novo ciclo de alta de juros promovido pelo Banco Central, além de não resolver o problema, terá efeitos colaterais adversos. “A questão central é que a atual pressão inflacionária é claramente caracterizada por um choque de oferta e não por excesso de demanda!”, Enfatiza.

Da mesma forma, é improvável que a situação do mercado de trabalho melhore, uma vez que não haverá crescimento econômico. “Mais do que um problema social, que por si só já justificaria uma política pública anticíclica, é também uma questão econômica. Mais uma pessoa desempregada é menos um consumidor. ”

Depois de um primeiro ano fraco, um segundo ano devastado pela pandemia, um terceiro pela estagnação, o que podemos esperar do último ano do atual governo?

As perspectivas de crescimento no próximo ano são limitadas, por dois motivos: primeiro, porque a desaceleração atual deixa poucos vetores para o crescimento em 2022: alto desemprego, queda da renda real, inflação persistente, juros altos, baixo consumo e baixo nível de investimentos são não são bons estimuladores do crescimento futuro. Em segundo lugar, estatisticamente, ao contrário de 2021, que herdou um efeito estatístico positivo de 3,6% a partir de 2020, o impacto de 2021 a 2022 será próximo de zero.


O salário mínimo para 2022 continua subvalorizado. Maus presságios para a economia


O cenário mais provável para 2022 é a estagflação: crescimento do PIB próximo a zero, inflação menor que em 2021, mas ainda relevante. O risco de uma possível recessão aumentará dependendo de variáveis ​​como a possível necessidade de novas medidas sanitárias restritivas devido às novas variantes do covid-19. A ajuda do Brasil, embora necessária, não será suficiente para impulsionar o consumo.

A pandemia obviamente afetou a economia brasileira. Mas nossa atividade já não estava baixa antes disso?

Sim, o desempenho após a recessão 2015-2016 foi fraco, pouco acima de 1% ao ano, em 2017, 2018 e 2019. Em 2020, com os efeitos da pandemia e a má gestão do seu combate, implicou uma recessão de quase 4% no ano. Assim, o crescimento de 2021 só nos volta ao patamar de 2019, mas com desemprego bem maior, renda menor e inflação maior.

Nos últimos anos, reformas como trabalhista e previdenciária foram apresentadas como necessárias para, dizia-se, criar um ambiente favorável e proporcionar segurança jurídica para que a economia pudesse crescer e criar empregos. Agora, o discurso se repete, com a reforma administrativa, por exemplo. Essas reformas tiveram algum efeito positivo no país?

Uma espécie de autoengano prevalece no papel a ser desempenhado pelas chamadas reformas. Na verdade, tiveram pouco efeito para o fim desejado, porque, não só porque sua expectativa de um resultado é superestimada, mas também porque o “conjunto da obra” não colabora. Ou seja, a combinação de políticas econômicas adotadas está longe de representar uma alternativa de desenvolvimento.


Desemprego chega a 12,9 milhões, informalidade cresce e renda cai 11% em um ano


O que esperar, por exemplo, do mercado de trabalho? A taxa de desemprego parou de crescer, segundo o IBGE, mas a informalidade aumentou e a renda caiu.

Se somarmos o desemprego, mais os desmotivados e os subempregados, temos 30 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho no Brasil. Emprego e renda são variantes do nível de atividade. Como já vivemos uma situação desfavorável ao final de 2021 e o crescimento econômico não ocorrerá, o cenário do mercado de trabalho tende a se manter retraído. Mais do que um problema social, o que por si só já justificaria uma política pública anticíclica, é também uma questão econômica. Mais um desempregado é menos um consumidor. Como crescer sem mercado consumidor, tendo em vista que o crédito também está cada vez mais caro?

‘A questão da política industrial está completamente fora da pauta’, lamenta Lacerda (Reprodução TV Cultura)

E a indústria? A produção acumula cinco quedas mensais consecutivas e há anos perde sua participação no PIB. O Brasil precisa de uma política específica para o setor? A desoneração da folha de pagamento, que acabou de ser prorrogada, foi positiva?

Não temos uma política industrial no país. Aliás, não temos nem Ministério da Indústria, pois na prática foi extinto, com a fusão realizada pelo atual governo dos ex-ministérios da Fazenda, do Planejamento, do MDIC e do Trabalho e Emprego, este último implantado apenas recentemente. A questão da política industrial está completamente fora da agenda. A desoneração da folha de pagamento, assim como as medidas específicas, são apenas paliativos que não respondem às grandes questões impostas pela revolução tecnológica da Indústria 4.0 e das telecomunicações 5G, para citar dois exemplos.


A inflação cai no próximo ano? Talvez, mas ‘a um custo social insuportável’, diz o Dieese


A inflação retomou seu ímpeto. As sucessivas subidas das taxas de juro têm alguma eficácia, considerando que a inflação não resulta do consumo “excessivo”?

A pressão inflacionária recente tem “nome e endereço”. O aumento dos preços das matérias-primas, especialmente petróleo e grãos (commodities) no mercado internacional, associadas à desvalorização do real, têm pressionado os preços internos de combustíveis, gás de cozinha e alimentos, entre outros.

Fatores específicos de nosso mercado, que vão muito além da questão fiscal sempre mencionada, também são relevantes: a política da Petrobras de paridade de preços internacional, estruturas de mercado em diversos setores oligopolísticos e indexação, são alguns deles.

A questão da taxa básica de juros no Brasil representa um paradoxo expressivo, especialmente diante da conjuntura atual: dada a prevalência do Regime de Metas de Inflação e a ineficácia de outros instrumentos de combate à inflação, a alta da Selic torna-se uma alternativa aparentemente única, com custos econômicos e sociais dramáticos!

A contradição atual é que o aumento da taxa de juros não resolverá o problema atual da inflação brasileira, embora tenha vários efeitos colaterais adversos. A questão-chave é que a pressão inflacionária atual é claramente caracterizada como um choque de oferta e não um excesso de demanda!

“Juros altos é um mecanismo clássico de combate aos aumentos de preços decorrentes da pressão da demanda, o que não é o nosso caso. Nossa situação é exatamente oposta. Há sinais claros de estagflação: inflação em alta, retração industrial crônica, elevada ociosidade da capacidade produtiva, desemprego expressivo e queda da renda ”

O aumento das taxas de juros não é neutro, causando efeitos deletérios, aumentando o custo do crédito e do financiamento privado e elevando o custo da rolagem da dívida pública. Isso aprofundará a queda da demanda, afetando negativamente outros aspectos, com o agravante que dificultará a situação fiscal do país, bem como das famílias e empresas endividadas. Também favorece o investimento financeiro em detrimento do investimento produtivo, ao contrário do que precisamos!

Por fim, o atual governo falou várias vezes em “retomada” e “recuperação em forma de V”. Você vê sinais disso no horizonte?

Infelizmente não. Todos os fatores já mencionados denotam um cenário de estagflação.


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