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Com 229 milhões de casos e 409.000 mortes só em 2019, a malária é uma das doenças infecciosas que mais afetou a humanidade ao longo da história. E, após décadas de pesquisa, finalmente temos uma vacina disponível contra ele.

Em entrevista coletiva realizada nesta quarta-feira (6) em Genebra, na Suíça, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou oficialmente o uso do imunizante RTS, S em regiões do planeta com alta taxa de transmissão da doença. Plasmodium falciparum, um dos protozoários por trás da doença.

O local que mais deve se beneficiar com a medida é a África Subsaariana, que concentra a grande maioria dos casos e mortes pela doença: a cada ano, mais de 260 mil crianças menores de cinco anos que ali vivem morrem de malária.

“É uma conquista histórica. A tão esperada vacina contra a malária é um avanço para a ciência, para a saúde infantil e para o controle dessa doença”, comemorou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

No entanto, apesar de representar uma grande novidade para todo o mundo, a vacina provavelmente não será usada no Brasil, que registrou cerca de 130 mil casos e menos de 30 mortes pela doença em 2020.

Isso porque o agente causador da maioria das infecções por aqui é o Plasmodium vivax, protozoário sobre o qual o novo produto aprovado não tem efeito.

O que é malária?

Esta doença infecciosa é transmitida pela picada de mosquitos familiares Anopheles, que são muito comuns em regiões tropicais e úmidas. Em algumas partes do Brasil são conhecidos como mosquito das unhas.

Como explicado acima, o agente causador é protozoário Plasmodium e existem cinco tipos diferentes. Os mais comuns são os falciparum, O Serravmachado é o malariae.

“O parasita causador da malária é diverso e tem grande capacidade de mutação. E isso torna quase impossível desenvolver imunidade após a infecção”, explica o infectologista André Siqueira, pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz ( FioCruz), no Rio de Janeiro.

Em locais com grande circulação do microrganismo, não é incomum encontrar pessoas que já tiveram a doença dezenas de vezes.

Depois de entrar no corpo humano, esse parasita viaja pela corrente sanguínea e se instala nas células do fígado. Após um período de maturação, ele retorna ao sangue e invade os glóbulos vermelhos (também conhecidos como glóbulos vermelhos).

Durante esse processo, o fígado e as células sanguíneas são destruídos, o que causa sintomas como febre alta, dor de cabeça, calafrios, dores no corpo e perda de apetite.

“E é importante ressaltar que o parasita assume formas diferentes em cada uma dessas fases, o que dificulta o desenvolvimento de vacinas com boa eficácia em todas as etapas”, observa o médico.

A seguir o mosquito Anopheles pica a pessoa com malária e suga o sangue infectado, criando novas cadeias de transmissão na comunidade.

A boa notícia é que o diagnóstico da doença é rápido e o tratamento é curativo, quando administrado no momento certo. Tende a ser mais perigoso para indivíduos com sistema imunológico comprometido, idosos e, principalmente, crianças, que são as principais vítimas fatais da infecção.

Como funciona a nova vacina?

O RTS, S foi desenvolvido desde 1987 pela farmacêutica britânica GSK. Após exames preliminares, o imunizante foi avaliado em ensaios clínicos envolvendo seres humanos a partir do ano 2000, com o apoio da ONG Path e da Fundação Bill e Melinda Gates.

Feito de uma proteína do Plasmodium falciparum e algumas outras substâncias, a vacina atua no chamado “esporozoíto” do protozoário, que é a forma que assume entre a picada do mosquito e a “viagem” até o fígado.

Só por curiosidade, essa jornada do parasita da pele ao tecido hepático costuma levar cerca de 30 minutos.

A última etapa dos estudos foi concluída em 2015. O trabalho final, publicado em revista científica The Lancet, envolveu cerca de 15.000 crianças da África Subsaariana e provou que o produto é seguro e eficaz.

Mesmo com os resultados favoráveis, a OMS ainda tinha algumas reservas sobre a eficácia do RTS, S em grande escala. O primeiro problema foi com o esquema de vacinação: para ser eficaz, é preciso aplicar quatro doses a cada indivíduo. Os três primeiros são ministrados no quinto, sexto e sétimo mês de vida. O quarto (e último) é oferecido quando o bebê completa 18 meses.

A organização temia que esse número de pedidos prejudicasse o uso de outros imunizantes, dados rotineiros contra outras doenças, e até trouxesse uma falsa sensação de segurança às famílias que, sentindo-se mais protegidas, abandonariam outros métodos de prevenção da malária, como a instalação mosquiteiros em camas e berços ou aplicação de repelentes.

Para dirimir essas dúvidas, a OMS criou em 2019 um projeto piloto em que as quatro doses da nova vacina foram aplicadas a cerca de 800 mil crianças que vivem em Gana, Quênia e Malauí.

Os resultados da experiência foram considerados positivos: além de ter um bom perfil de segurança, a nova vacina evitou 40% dos casos de malária e, mais importante, reduziu em 30% as infecções mais graves, que estão relacionadas com hospitalização e mort3*.

“Se considerarmos que ocorrem 260 mil mortes anuais de menores de cinco anos, uma redução de 30% é algo considerável”, calcula Siqueira.

Claro que esse índice de 30% ou 40% ainda não é o ideal, mas representa um avanço importante e abre a possibilidade de desenvolvimento de novos produtos ainda mais eficazes.

“Esta aprovação pode servir de ímpeto para novos financiamentos e esforços de pesquisa para soluções ainda melhores”, concorda o especialista em doenças infecciosas.

A OMS destaca duas outras observações importantes da experiência da vida real nas três nações africanas: não houve relaxamento de outras medidas preventivas (como o uso de telas na cama) e a aplicação de doses mostrou-se econômica.

“Durante séculos, a malária afetou a África subsaariana e causou enorme sofrimento pessoal. Estávamos esperando uma vacina eficaz e, pela primeira vez, podemos recomendar o uso de um imunizante em larga escala”, disse o Dr. Matshidiso Moeti, diretor regional da OMS para a África.

“Isso representa um vislumbre de esperança para o continente que carrega o fardo mais pesado da doença e esperamos que muitas crianças que serão protegidas de agora em diante se tornem adultos saudáveis.”

É no brasil?

A recomendação da OMS é que a nova vacina seja usada em regiões onde haja transmissão “moderada ou alta” da Plasmodium falciparum.

No Brasil, essa não é a causa mais frequente de malária: segundo o Ministério da Saúde, Plasmodium vivax representa 89% dos casos notificados no país, que se concentram principalmente na região amazônica.

“RTS, S, portanto, não é uma vacina com aplicação no Brasil”, concorda Siqueira.

A boa notícia é que estão caindo novos casos dessa doença em nosso país.

“Dados do PNCM (Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária) mostram que, em 2019, o Brasil notificou 157.454 casos de malária, uma redução de 19,1% em relação a 2018, quando foram registrados 194.572 casos da doença no país”, informa a boletim publicado pelo ministério no final de 2020.

Para o infectologista da Fiocruz, os casos de malária no Brasil são influenciados diretamente por dois fatores: a organização dos sistemas de saúde e as mudanças ambientais.

“Muitas vezes, uma cidade se mobiliza para diagnosticar e tratar a malária. Quando os casos caem, esses programas deixam de existir, o que provoca um novo aumento algum tempo depois”, observa.

“E também vemos crescimento ocorrendo em áreas de desmatamento e mineração na Amazônia”, informa.

O Brasil até tem um plano para acabar com a malária em território nacional. A meta é registrar menos de 14 mil casos e nenhuma mort3* até 2030 e eliminar por completo a transmissão de Plasmodium falciparum ao longo dos próximos nove anos.

Para isso, é necessário fortalecer os sistemas de vigilância de doenças, adquirir testes de diagnóstico rápido, oferecer tratamentos na rede pública e investir em pesquisa e desenvolvimento de novas soluções para esse problema.

Uma solução interessante poderia ser o uso de um novo medicamento chamado tafenoquina. Atualmente, a medicação precisa ser tomada por alguns dias, o que pode ser difícil para alguns pacientes.

“Esse medicamento está sendo estudado em Manaus e Porto Velho e, se os resultados forem positivos, pode se tornar mais uma ferramenta valiosa para mudar a história da malária”, avalia Siqueira.

Embora existam estudos para a criação de uma vacina contra a Plasmodium vivax, o desafio é ainda mais complexo. Artigo de 2013 assinado por especialistas da University of Oxford, no Reino Unido, e da University of Zurich, na Suíça, destaca a resiliência desse parasita mais comum em solo brasileiro.

“O Plasmodium vivax possui mecanismos sofisticados que permitem que permaneça dormente por meses ou até anos em pequenas estruturas do fígado, o que representa um enorme desafio para a erradicação da malária ”, escrevem os autores.

Siqueira também entende que há menos interesse em desenvolver um imunizante para o Plasmodium vivax. “Temos até alguns grupos que trabalham nessa área, mas o financiamento é bem menor”.

De acordo com o site ClinicalTrials.Gov, existem 10 ensaios clínicos concluídos ou em andamento com candidatos à imunização contra esse parasita mais comum no Brasil. No caso do falciparum, mais frequente na África, há 130 registros de estudos desse tipo.

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